Memórias

Martha Medeiros Outro dia li um ensaio interessante sobre a arte de esquecer. Dizia que a memória até pode ajudar a conservar nossa história, mas que o esquecimento é fundamental para a regeneração da vida, que só esquecendo o passado podemos nos dedicar a planejar o futuro, algo assim. É uma tese controversa. Avanços históricos, sociais e tecnológicos estão intimamente ligados ao conhecimento do que já se fez antes. Já nas questões pessoais, um pouquinho de esquecimento pode, realmente, ajudar a desatar nós e a seguir em frente, mas isso em se tratando de pessoas que possuam mesmo um futuro.  Para pessoas mais idosas, não pode haver velhice pior do que aquela em que se está mergulhado no breu. Inúmeras doenças degenerativas corroem a memória, deixando a pessoa enredada no presente instante. Ela esquece o que comeu no almoço, esquece com quem estava conversando há meia hora e sobre o quê. Menos mal que, mesmo com esse esquecimento de fatos imediatos, consegue produzir flashbacks, lembrar da infância, de acontecimentos remotos. Mas se a memória for inteirinha para o brejo, de que adiantou ter vivido? Não consigo imaginar chegar lá adiante, velhinha, depois de ter atravessado tantos conflitos, tantos amores, cometido tantos erros e tantos acertos, e não poder comemorá-los, todos. O que justifica uma vida não são nossas boas intenções, nossas ideias jogadas ao vento, nossos quases: vida é a...

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