Mês: novembro 2015

Qual é o seu Manequim?

As mulheres nos torturam com suas medidas. Não entregam de jeito nenhum. Nem de mão beijada, muito menos de pé beijado ou de nuca beijada. Temos que descobrir ao longo da relação, e jamais interrogar o tamanho do sutiã, da calcinha, da calça, da camisa, do vestido, do biquíni. O marido é impelido a espiar os cabides, fazer média das pilhas do guarda-roupa, cruzar fotografias dos últimos dez anos. Eu enlouqueço procurando descobrir. Para não sofrer ao comprar presentes, as senhas bancárias são dados da nudez da minha musa. Assim não erro, e não sofro o constrangimento de vê-la voltar à loja por incompetência amorosa. Mas por que a esposa ou a namorada não nos facilita o acesso? Não seria mais simples nos fornecer uma listinha com a descrição básica? A hipótese mais comum é romântica: ela deseja secretamente que a gente decore seu corpo, assim como somos obrigados a memorizar a data do primeiro beijo, do primeiro abraço, do primeiro cinema, do primeiro jantar, da primeira transa. Apesar da beleza da alternativa, é falsa. Mulher não repassa sua modelagem de propósito, já que nunca se sente magra o suficiente. Conserva a esperança de que o jeans da adolescência voltará a entrar em sua cintura, de que o vestido mínimo da festa de vinte anos descerá suavemente pelas costas. Pode estar exuberante, impecável, em forma, ainda suspira pela superação de suas...

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O amor nunca acaba, ele muda

Um ano antes de sua morte, Franz Kafka viveu uma experiência singular. Passeando pelo parque de Steglitz, em Berlim, encontrou uma menina chorando porque havia perdido sua boneca. Kafka ofereceu ajuda para procurar pela boneca e combinou um encontro com a menina no dia seguinte no mesmo lugar. Incapaz de encontrar a boneca, ele escreveu uma carta como se fosse a boneca e leu para a garotinha quando se encontraram. “Por favor, não chore por mim, parti numa viagem para ver o mundo. “. Esta foi a primeira de muitas cartas que, durante três semanas, Kafka entregou pontualmente à menina, narrando as peripécias da boneca em todos os cantos do mundo : Londres, Paris, Madagascar… Tudo para que a menina esquecesse a grande tristeza! Esta história foi contada para alguns jornais e inspirou um livro de Jordi Sierra i Fabra ( Kafka e a Boneca Viajante ) onde o escritor imagina como como teriam sido as conversas e o conteúdo das cartas de Kafka. No fim, Kafka presenteou a menina com uma outra boneca. Ela era obviamente diferente da boneca original. Uma carta anexa explicava: “minhas viagens me transformaram…”. Anos depois, a garota agora crescida encontrou uma carta enfiada numa abertura escondida da querida boneca substituta. Em resumo, o bilhete dizia: “Tudo que você ama, você eventualmente perderá, mas, no fim, o amor retornará em uma forma diferente”. May...

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J’Accuse

J’ACCUSE !!! (EU ACUSO!!!) (Tributo ao professor Kássio Vinícius Castro Gomes***) Mon devoir est de parler, je ne veux pas être complice. (Émile Zola) Meu dever é falar, não quero ser cúmplice. (…) (Émile Zola) Foi uma tragédia fartamente anunciada. Em milhares de casos, desrespeito. Em outros tantos, escárnio. Em Belo Horizonte, um estudante processa a escola e o professor que lhe deu notas baixas, alegando que teve danos morais ao ter que virar noites estudando para a prova subsequente. (Notem bem: o alegado “dano moral” do estudante foi ter que… estudar!). A coisa não fica apenas por aí. Pelo Brasil afora, ameaças constantes. Ainda neste ano, uma professora brutalmente espancada por um aluno. O ápice desta escalada macabra não poderia ser outro. O professor Kássio Vinícius Castro Gomes pagou com sua vida, com seu futuro, com o futuro de sua esposa e filhas, com as lágrimas eternas de sua mãe, pela irresponsabilidade que há muito vem tomando conta dos ambientes escolares. Há uma lógica perversa por trás dessa asquerosa escalada. A promoção do desrespeito aos valores, ao bom senso, às regras de bem viver e à autoridade foi elevada a método de ensino e imperativo de convivência supostamente democrática. No início, foi o maio de 68, em Paris: gritava-se nas ruas que “era proibido proibir”. Depois, a geração do “não bate, que traumatiza”. A coisa continuou: “Não reprove,...

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Casamento, modo de usar

Case-se com alguém que adore te escutar contando algo banal como o preço abusivo dos tomates, ou que entenda quando você precisar filosofar sobre os desamores de Nietzsche. Case-se com alguém que você também adore ouvir. É fácil reconhecer uma voz com quem se deve casar; ela te tranquiliza e ao mesmo tempo te deixa eufórico como em sua infância, quando se ouvia o som do portão abrindo, dos pais finalmente chegando. Observe se não há desespero ou insegurança no silêncio mútuo, assim sendo, case-se. Se aquela pessoa não te faz rir, também não serve para casar. Vai chegar a hora em que tudo o que vocês poderão fazer, é rir de si mesmos. E não há nada mais cruel do que estar em apuros com alguém sem espontaneidade, sem vida nos olhos. Case-se com alguém cheio de defeitos, irritante que seja, mas desconfie dos perfeitinhos que não se despenteiam. Fuja de quem conta pequenas mentiras durante o dia. Observe o caráter, antes de perceber as caspas. Case-se com alguém por quem tenha tesão. Principalmente tesão de vida. Alguém que não o peça para melhorar, que não o critique gratuitamente, alguém que simplesmente seja tão gracioso e admirável que impregne em você a vontade de ser melhor e maior, para si mesmo. Para se casar, bastam pequenas habilidades. Certifique-se de que um dos dois sabe cumpri-las. É preciso ter...

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