Se para os protagonistas da história, adultos e amadurecidos, a separação é uma fase difícil, para os filhos do relacionamento, o papel de coadjuvantes também precisa de atenção extra e de muita conversa.

O relacionamento está insustentável e o inevitável acontece. Sim, o casal que pensou que ia ser “feliz para sempre” resolve se separar. Se o momento não é fácil para eles, adultos e amadurecidos, imagina para os seres que foram gerados dessa união. E mais cedo ou mais tarde, eles terão que ser avisados do acontecimento, se é que eles já não perceberam o clima. Pois é justamente aí que mora o perigo. Qual é a melhor maneira de contar para os filhos que papai e mamãe estão se separando?

Antes de mais nada, na opinião da psicóloga Lidia Natália Dobrianskyj Weber, professora da Universidade Federal do Paraná, é preciso esperar para saber se a decisão é definitiva ou se tudo não passa de uma crise passageira. Assim, ninguém sofre desnecessariamente. Se a separação de passageira não tem nada, é preciso então comunicar o fato aos filhos de forma e no momento certos. Nada de chegar e contar sozinha. O casal, ou melhor, o ex-casal deve sentar com eles e conversar, deixando, se possível, as raivas e emoções de lado. A psicopedagoga Marluce Pessoa sugere, inclusive, que os pais combinem o que vão dizer antes desse papo. Para a terapeuta, é importante dizer que não há divórcio de filhos. “Embora eles não sejam mais um casal, eles continuam pai e mãe da criança e isso deve ser demostrado tanto na palavra quanto na ação. Os filhos só vão acreditar nisso se os pais agirem assim”, aconselha Marluce.

Na opinião do pediatra Leonardo Posternak, que acabou de lançar o livro “O direito à verdade – cartas para uma criança” pela editora Globo, muitos pais conversam com seus filhos de uma forma muito complicada ou utilizando uma linguagem infantilizada. “Deve-se ser dito de uma maneira clara, simples e direta, sempre respeitando a criança e levando em consideração que ela é um ser complexo e inteligente”, ensina o médico, que integra a equipe de pediatria do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Leonardo Posternak acha ainda que adultos que “poupam” os filhos de determinados assuntos, acabam formando crianças alienadas. Para ele, uma criança que não sabe tem mais medos e corre o risco de acabar sabendo uma “verdade” deformada e perder a confiança na palavra dos pais. “A verdade mais dolorosa oferece menos perigo para a evolução psicológica e afetiva da criança que a mentira mais piedosa. Isso é confirmado permanentemente na prática pediátrica”, afirma.

A aceitação ou não dessa nova situação familiar são outros quinhentos. Na visão do pediatra Leonardo Posternak, isso vai depender da história familiar e da idade dos filhos. A psicóloga Lídia Natália Dobrianskyj Weber cita algumas pesquisas que mostram que as crianças mais novas têm maior ansiedade com a separação, geralmente porque têm uma percepção menos realista e mais fantasiosa das causas, inclusive se achando culpadas. Elas, no entanto, são capazes de adaptar-se mais rapidamente à nova situação e geralmente têm menos más lembranças do que as mais velhas.

A professora Lídia Natália Dobrianskyj Weber, que tem Doutorado em Psicologia Experimental pela USP, afirma também que a absorção é mais complicada para meninos e para crianças com temperamento difícil. Foi justamente isso o que ocorreu na casa da fisioterapeuta Cíntia Barros há quatro anos, quando ela se separou do biólogo André Barros. Thiago, então com 11 anos, disse que nunca mais ia ser feliz e chorou muito enquanto Mariana, com oito anos, mostrou um alívio imediato e melhorou o desempenho na escola. “A professora ainda não sabia nada da separação e mandou me chamar para dizer que a Mari estava bem melhor depois de meses de inquietação”, lembra a fisioterapeuta.

Algumas crianças, porém, ainda têm a ilusão de que os pais vão voltar a viver juntos. Segundo a psicopedagoga Marluce Pessoa, esse desejo não é raro e independe da faixa etária. Luísa Gonçalves, nove anos, é uma dessas crianças. A menina vive alugando o filme “Operação Cúpido” e costuma convidar a mãe para assistir com ela. O tema do filme, já dá até para adivinhar: duas meninas gêmeas que fazem de tudo para reatar o casamento dos pais e, depois de muita confusão, finalmente conseguem. “Eu já disse para a Luísa que não vou voltar pro pai dela, que é impossível. Não acho justo ficar alimentando uma falsa ilusão na menina”, conta Andréia, a mãe. A psicopedagoga não aconselha aos pais que deixem de separar ou retomem o casamento só porque os filhos pedem.

Não é para desanimar, mas depois desse primeiro momento virão outros tão importantes e angustiantes como a guarda, a visitação e o estabelecimento da pensão dos filhos. É prudente segurar o fôlego e continuar agindo de forma madura. Todos agradecem.

Texto publicado em Bolsa de Mulher