Helio Felippe
A cena costumeira aos domingos: ele na sala em frente a televisão assistindo ao futebol, e ela, sem poder falar nada, vai para o telefone ou em busca de outra tarefa doméstica para atenuar o seu tédio. O domingo vai acabando como prefácio do que será a semana, sempre burocrática e com poucas palavras: o ronco no sofá, o jornal, a crítica sobre algo na cozinha, etc. Nenhum elogio! Chega a hora de dormir, cada um vira para um lado e acaba-se mais um dia.
Alguma semelhança? Quem casado que nunca viveu cenas como esta na prática? Algumas pessoas pensam que isso só acontece na casa delas e não se dão conta de que é muito mais comum do que se imagina. Àquela pessoa que dorme ao se lado e por quem você fazia de tudo pelo seu amor, hoje, tornou-se um hábito.
Conjugues maduros, que se admiram, se respeitam e se sentem pelo menos um pouco atraídos um pelo outro, conseguem ver boas perspectivas na estabilidade. A crise é sempre um estado de intolerância, no entanto, quando se gosta, a tolerância é bem maior.
Existe sim, uma expectativa e ansiedade pela excitação sentimental, onde ambos vão amarem-se pelo resto da vida, serão felizes para sempre, etc. Mas na prática não é bem assim não. O que acontece é uma grande frustração no casamento que começa a fornecer rotinas para a manutenção da família, a chegada dos filhos, o trabalho. Enquanto muitos homens são práticos na sua essência, algumas mulheres continuam sonhadoras nos seus delírios românticos à espera de que algo de bom ainda vai surgir.
A má notícia é que parece nada mudar. No Brasil,  principalmente, estima-se que 20% dos casamentos acabam em divórcio, número bem pequeno se comparado aos Estados Unidos onde o índice está próximo aos 50%. Mas, o que acontece com os outros 80% dos casais? Esse pergunta na verdade tem uma resposta que incomoda ainda mais, ou seja: eles vão empurrando a realidade com a barriga. O tédio, conseqüência da inexorabilidade do tempo e dos aborrecimentos cotidianos, vem como uma saída para as sucessivas crises que costumam pontuar o casamento. O tédio é como uma desidratação emocional, deixa-se de investir naquilo que não adianta, no que já não tem jeito, é tudo uma grande rotina. Na verdade, essa mesmice é justamente para não comprometer mais o que já está comprometido, para não entrar mais ainda em conflito com o parceiro, desequilibrando ainda mais o precário casamento, enveredando assim por um cotidiano morno, sem sal, sem novidades, questionamentos e repleto de pequenas cismas.
O que fazer quando não se consegue colocar seus sentimentos em “pratos limpos”? Quando não se discute a relação? E por qual razão o homem teme tanto em discuti-la? Doentiamente, às implicâncias do dia-a-dia ganham uma dimensão ainda maior transformando-se em ressentimentos. Talvez o medo de colocar as rusgas diante do outro possa levar abaixo o sustentáculo desse casamento, pois o medo da verdade é o que mantém os problemas do relacionamento longe. Se discuti-los, a união acaba.
Ninguém faz isso em sã consciência, por ser um insensível, mas talvez por reconhecer a importância do casamento na organização social de suas vidas, por ser a união mais convenientemente aceitável.
O casamento não é um eterno banquete, e nem pode ser, só a experiência é capaz de apontar para as mazelas matrimoniais. Não importa por quanto tempo se namorou, por quão detalhado foi o noivado, e o quanto bonita a lua de mel. A visão limitada do casamento não deixa que os empolgados casais vislumbrem o que vem depois. Tudo muda!
Na tentativa de preservarem a ilusão matrimonial, marido e mulher insistem em preservar uma imagem idealizada do parceiro, que foi construída nos tempos de namoro. É claro que essa imagem não resiste aos embates da relação e sucumbe na desilusão.
Querer viver um casamento com as mesmas expectativas da época de namoro é no mínimo imaturidade. Não dá para manter um casamento como se fosse um filme romântico, deve-se mudar as expectativas, e conviver de acordo com a nova realidade. Um termômetro disso é o sexo que já não é mais o mesmo e, não se pode desejar algo que já não tem mais a mesma volúpia dos tempos de namoro. A felicidade se conquista pela fidelidade que vem através da estabilidade. Casais infiéis são aqueles que por falta de um elemento mais forte que os mantenha ao casamento, vão em busca do elo perdido e cedem ao impulso da curiosidade.
Se a pergunta a essa altura é se o seu casamento está acabado, só existem duas opções: ou ele realmente chegou ao fim e você está adiando esse decreto ou está procurando uma maneira de salvá-lo. Salvar um casamento é sempre uma atividade arriscada, o resultado nem sempre está de acordo com o que se quer, mas, no entanto, sempre vai existir aquela desculpa de que “pelo menos, tentei”.
Ao buscar profissionais para solucionar a crise, poderão encontrar a conotação religiosa que dirá: “- o casamento, assim como a fé, é uma flor e deve ser regada todos os dias”. Noutra, uma perspectiva neoliberal, dirão: “- casamento é um contrato cujas bases devem ser renegociadas periodicamente”. Não importa a forma, o conteúdo será sempre o mesmo. O casamento feliz necessita de uma reengenharia constante. Para fugir da rotina e se manter interessado no parceiro, deve-se renovar projetos comuns com os pés no chão, assim como uma casa nova ou a reforma da antiga, uma viagem um pouco mais longa, quem sabe ao exterior, obrigar-se a sair regularmente com amigos e recuperar delicadezas perdidas, parecem ser  fundamental.
Uma outra parte da estratégia é sincronizar as vontades, o que é muito complicado. Sempre quando um quer ouvir música outro quer ver televisão; se um quer ir ao cinema, outro que ficar em casa; se um quer transar, o outro quer dormir. Sincronizar as vontades implica em ceder, sem que isso configure algo ruim, sem que se sinta diminuído ou menosprezado. Não é uma derrota e poder-se-á tirar muito proveito da situação. O segredo está na paciência e tolerância.
O bom do casamento é ter alguém com quem conversar e dividir os problemas, o sexo garantido, pode não ser dos melhores, mas significa um porto seguro, em tempos de doenças sexualmente transmissíveis. O casamento é um abrigo existencial e nada melhor do que isto para aprimorar a nossa personalidade.