Helio Felippe

Longas juras de amor eram feitas na namoradeiras no final do século XIX, quando se idealizava a mulher em suas características femininas. José de Alencar registra em seus contos os olhares das famílias que tiravam toda e qualquer privacidade das mulheres da época
Por volta dos anos 40, depois da segunda guerra, as mulheres conquistaram um namoro no portão com hora marcada, vigiada por pais e irmãos. Nessa época, as novelas no rádio tornavam-se popular, no entanto, o comportamento dos casais não iam além de leves toques de mãos. Beijo, nem pensar.
Anos 50, nesta época, o rapaz apaixonado ganhou o direito de atravessar o portão e se instalar no sofá da sala, sempre sob o olhar do elemento mais natural da família, a famosa “vela” que era um desocupado (avó ou irmão), que ficava sempre juntos ao casal para não facilitar qualquer gesto além de um olhar, um sorriso. Eram os bastiões da moral e bons costumes. Sexo, só depois do casamento.
Uma verdadeira avalanche ocasionou a contracultura modificando os valores morais nos anos 60. Impulsionado pela pílula anticoncepcional, a permissividade sexual desafiou os namorados à proibir proibir. O festival de Woodstock selou esse comportamento, onde beijos e abraços e até mesmo filhos precoces despontavam juntamente com a rebeldia da época.
O sexo acabou banalizado através da facilidade em consegui-lo. Instalou-se a falta de confiança entre os casais e por conta disso, muitas relações se desfizeram em nome da liberdade, em nome dessa nova ordem.
Muitas mulheres por estarem separadas tiveram que “ir à luta”, trabalhar para seu sustento ou da própria família abandonada, fazendo com que a dupla jornada de certa forma fortalecesse àquela que antes era frágil, intocável.
A mulher passa a exigir seus direitos não só sociais, mas também dentro de casa, principalmente, na cama.
Não muito distante, a partir dos anos 80, a Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis frearam comportamentos das gerações anteriores. A camisinha passou a ser mais conhecida porque virou item obrigatório nas relações sexuais, a proliferação dos motéis facilitou aos jovens que não podiam transar em casa. Nessa mesma época, os jovens embalados pelas boites e discotecas dançavam coladinhos, num só ritmo, realizando ali uma conquista de liberdade e expressão de seus corpos.
Se por um lado a liberdade excessiva tornou as relações mais frágeis, a misteriosa doença chegou para acabar de vez com a promiscuidade que assolava as relações, tornando-as mais seguras e duradouras.
Novos tempos, encontros virtuais facilitados pela internet, mudaram o comportamento dos jovens que só estão afim de “ficar” e, numa só noite “ficam” com o maior número possível de parceiros. Beija-se quem estiver com a boca aberta e o ritmo da música já não dita mais a vontade de conquistar. O que se vê são pessoas isoladas, ensimesmadas que não vão ao encontro do outro. Quem se “atreve” a manter uma relação? Exemplos dos maus relacionamento de pais, fracassos amorosos de gerações anteriores e a proliferação de doenças faz com que os jovens atuais mantenham a distância entre si, pelo menos, o suficiente para não frustrar e serem frustrados. Existe no inconsciente coletivo dos jovens, um erro de leitura sobre o que é amor, amar, sexo, drogas, música, afeto, pai, mãe… um verdadeiro bug neuronal.
Enquanto elas reclamam da falta de respeito dos homens, eles dizem que elas estão fáceis demais. Quem se atreve a “encontrar o caminho” do amor, faz de sua casa o seu ninho, muitas vezes, sob o patrocínio dos próprios pais. Talvez, esse seja o meio termo.