Foi só um beijo e a amizade continua! Esse foi o tema tratado entre um casal que conversavam num restaurante. De um lado, a mulher angustiada e  apelando para que fosse somente amizade, do outro, o inexorável homem, perplexo com tamanha lente colocada na situação.  – “foi apenas um beijo!”.

Mas, além da discussão, o que podemos saber sobre um simples beijo?

Acredita-se que o beijo tenha surgido 500 anos a.C., época em que os amantes começavam a ser retratados nas esculturas e nos murais dos templos de Khajuraha, na Índia. Mas existem muitos outros estudos interessantes sobre sua origem. A palavra “beijo” é derivada do latim “basium”, que é o beijo romântico, apaixonado, na boca. “Saevium”, o beijo delicado e terno e “osculum”, o que é dado na face. Mas em qualquer língua – “kiss”, “beso”, “kissu”, “küchen”, “baiser”, “tzub”, “su-ub”, “pitér”, “felia”, “xkyss”, “potselui”, “neshiká” -, seja ela qual for, é o início de tudo.

Foi só um beijo

Seriam a paixão e o amor elementos de ligação entre nós, seres humanos, é algo maior que nos constitui, ou que, em essência, constituímos? O beijo e o abraço forte, apaixonado, não lembram elementos de busca de um entrar no outro, de um penetrar, buscando uma situação de fusão, de um se tornar um só? Muito além dos elementos racionais e sensitivos do prazer como resposta simples a essa pergunta complexa, parece haver algo maior.

O beijo é uma das formas mais íntimas de duas pessoas se relacionarem. Através do beijo olhos se falam, mesmo na escuridão, no silêncio, almas se aproximam e se tocam, o calor e o perfume dos dois se torna um só, corpos se penetram e se fundem.

Um beijo nunca é apenas uma questão formal, um problema de planos e sombras. Um beijo é carregado de significado, com um poder curioso que foi analisado, pelo inventor da consciência moderna: Sigmund Freud.

Em Conferências Introdutórias à Psicanálise, Freud cita o beijo para complicar a distinção entre a sexualidade “normal” e a “perversa”. O beijo significa, por um lado, relações heterossexuais com objetivo de procriar e, por outro, mais ou menos todo o resto. “Até mesmo um beijo pode ser descrito como um ato perverso”, afirmou Freud, “já que ele consiste em unir duas zonas erógenas orais em vez de duas genitálias. No entanto, ninguém o considera perverso; ao contrário, ele é permitido em performances teatrais como uma leve insinuação ao ato sexual”.

Seja qual for a compreensão de Freud sobre a libido humana, não há dúvida de que ele estava identificando uma brecha surpreendente na moral de seu tempo, uma que só iria aumentar no século seguinte. Beijar era uma insinuação admissível do “ato sexual” que não podia ser representado diretamente; nos filmes, graças ao aperfeiçoamento da iluminação, da maquiagem e do close, era uma insinuação ainda mais ampla e sugestiva do que num palco de teatro. Durante muito tempo – e sofrendo várias censuras formais e informais –, um beijo era todo o sexo que você podia mostrar na tela. E a definição dada por Freud de perversão é precisamente essa transformação de uma atividade sexual específica que não envolve as genitálias em um desvio para toda a sexualidade.

O contato físico é, por consequência, parte essencial de toda essa magia, mas… por que?

A resposta baseada no simples prazer sensitivo que nasce desse contato físico parece não considerar em profundidade a própria natureza complexa do ser humano. Muito além do prazer físico, sensitivo, parece existir um forte desejo inconsciente de ambos se tornarem um só; de se fundirem.

Quando beijar relaxe! Se entregue e curta os movimentos dos lábios, da língua… Sinta o sabor do que tem dentro do parceiro, porque o beijo é um meio de comunicação, se não for bom, não rola. Encoste-se no corpo do outro, faça carinho no rosto, sinta o cheiro do pescoço, o calor e a temperatura subirem. É bom demais!

O “beijo mágico” – o que leva os pensamentos à loucura, desfaz as “neuras”, desmistifica os medos e nos faz plenos. O beijo “bom” traz tranquilidade, segurança e êxtase. Nada como beijar e se sentir realizado. Isso porque, com certeza, esses lábios se pertencem, nem que seja por um ano, dois ou mais tempo – quem sabe até por alguns minutos? Mas não esqueça jamais!

Lábios bonitos, bem torneados, mas sempre fechados, não “pedem” um beijo. É preciso sorrir, mostrar a felicidade, e através dela fazer um convite para alguém dividir o mais sublime toque entre duas pessoas – um beijo. E com sorte e muito desejo, conhecer os seus segredos.

Então, ao casal do restaurante resta dizer que um beijo diz muitas coisas que não dariam escritos neste texto. Mas é bom lembrar que um beijo é um “lacre” de um tempo que está sendo vivido ou que foi vivido. Sela um documento que tem valor e não um simples ato que nada vale.

Beijar é bom mesmo, daí as belas histórias que ficaram em nossas fantasias como a da “Bela Adormecida! E quem não gostaria de ser despertado por um príncipe? Ou por uma princesa? Nesse caso, resta saber quem será o sapo da história.

Helio Felippe