Você sabia que algumas pessoas ficam excitadas sexualmente ao ver alguém dormindo? Que outros só chegam ao orgasmo se o parceiro estiver chorando? Sabia que é possível se excitar apenas esfregando um tecido, e que algumas pessoas precisam simular estupros para terem prazer? Já ouviu falar em práticas sexuais envolvendo plantas, estátuas, bichos de pelúcia? Uma parte considerável da comédia espanhola Kiki – Os Segredos do Desejo fornece um catálogo de fetiches alternativos àqueles mais difundidos, como o voyeurismo, o sexo grupal e o sadomasoquismo.

Estes prazeres pouco habituais são apresentados em esquetes separadas, interpretadas por pessoas jovens, belas, brancas e de classe média em Madri. A estrutura é convencional: apresentando as histórias em paralelo, o filme faz com que todas as tramas introduzam o mesmo problema no início (uma pessoa não consegue realizar os seus desejos), com um desenvolvimento simultâneo (todas levam suas práticas ao limite, arriscando seus relacionamentos amorosos) e um mesmo desfecho, otimista e coincidente. O discurso é unívoco: pode ser difícil manifestar fetiches minoritários, mas todo desejo vale a pena contanto que exista amor.

A intenção é louvável e supostamente progressista, mas não deixa de incomodar por sua ingenuidade. Em nome do lema “paz e amor”, a comédia de Paco León permite que os personagens cometam atos execráveis, como o estupro conjugal e maus-tratos a animais. Essas cenas são filmadas com as mesmas cores pastéis e ritmo divertido dos demais momentos. No final, todos são desculpados porque agiram em nome do amor, já que os fins aparentemente justificam os meios. Em nome do prazer individual, sucessivas demonstrações de manipulação e abuso são toleradas no relacionamento. Kiki – Os Segredos do Desejo é um filme dos nossos tempos pós-modernos, no qual o prazer do indivíduo encontra-se acima do interesse do casal.

Para um filme abordando sexo como tema principal, a direção é bastante casta. Metáforas visuais – frutas fálicas, pêssegos representando vaginas, picolés respingando à altura da virilha – se encarregam do aspecto lúdico. No entanto, consequências realistas da prática sexual (as angústias dos personagens antes e depois do ato, as dúvidas, o medo) estão ausentes: a complexidade psicológica é eliminada em prol de uma abordagem solar, meio pueril, na qual cada tipo em cena existe acima de tudo para ilustrar um fetiche. Neste sentido, as boas atuações de Ana Katz, Natalia de Molina e Belén Cuesta são pouco aproveitadas, já que as personagens nunca ultrapassam seu caráter funcional dentro da trama.

Como comédia, o resultado diverte, porém o humor buscado é aquele do incômodo: são filmadas com grande estranheza as cenas em que Paco (o próprio diretor, Paco León) aceita que outro homem urine em seu peito, ou quando Alexandra tem um orgasmo solitário na estação de metrô, após esfregar o colarinho da camisa de um anônimo no vagão. Embora afirme que toda forma de prazer é aceitável, Kiki não deixa de transparecer o deboche por práticas incomuns. Existe pouca adesão com os personagens: rimos por sermos tão diferentes deles. Entre tolerância ao estupro e desprezo por fetiches, o resultado revela um evidente conflito ideológico. Tudo isso em nome do imperativo da leveza e do final feliz.

Bruno Carmelo

 

Homens e Mulheres só tem em comum, a cama onde dormem.

Mudam os modelos de relacionamentos afetivos nas diferentes formas de vivência a dois, mas nas relações as pessoas são sempre sociais, praticam o que creem, são o que pensam, mais do que pensam o que não são.

No que tange a sexualidade, por exemplo, as pessoas efetivam crenças, realizam-se, realizam o outro ou são injustas e logo as relações se mostram injustas, restritas e pobres. Com isso a paz entre os dois desmorona para se instaurar a guerra, que só aumenta a injustiça na forma de acusações neuróticas, desrespeitosas, quando os dois ou um deles se investe no papel de policial para investigar o outro, como se fosse sua propriedade escrava. Isso, quando não envolvem a alardeada família, que quando invocada inapropriadamente também aplica suas crenças e preconceitos, ampliando o campo da beligerância.

Uma das causas da guerra, que tornam as relações entre duas ou mais pessoas verdadeiro inferno, é a sexualidade, ainda uma fonte ilustremente desconhecida, inexplorada e empacotada em tabus preconceituosos.

As mulheres ignoram-se a si mesmas. Nunca olharam suas vaginas num espelho e nunca estudaram sua composição orgânica, suas funções sexuais e a beleza da vida que significam. Não sabem o que é acariciarem-se a si mesmas, portanto amarem-se e valorizarem-se enquanto corpos, emoções e consciências. 

Acredito  que o incômodo tenha imperado na sala de cinema, as gargalhadas nervosas dos homens, os risinhos controlados das mulheres, denotaram o quanto tudo ainda é muito diferente do que eles tem feito.

Mais desastroso ainda quando os casais se recusam à arte de conversar sobre sua sexualidade, de perguntar e de ler quando não sabem. Depois quando vão para cama – muitos só conhecem a cama como base de apoio para copular, numa pobreza íntima que se derrama em tudo o mais – é aquela rotina para cumprir agenda.

Helio Felippe

 

 

As parafilias tratadas no filme:

Dacrifilia – A dacrifilia, também conhecida como dacrilagnia é uma forma de parafilia onde o indivíduo sente interesse sexual ao observar o seu parceiro em lágrimas ou chorando

Hifefilia – A excitação depende da posse de um objeto estranho: roupas, cabelo, pele, etc.

Somnofilia –  é um tipo de parafilia em que a excitação sexual e/ou o orgasmo são obtidos ao interagir sexualmente con um indivíduo em estado de sono

Harpaxofilia – Prazer sexual derivado de ser uma vítima de roubo, assalto.