LADO B: UM GRANDE SUCESSO

Quando se fala em sexo anal, medo, pudor e constrangimento é o que se passa pela cabeça de muitas mulheres. No entanto, antes dessas sensações, o que vem mesmo com toda força, embora com carinho, é a curiosidade. Tabu da nossa cultura, mas curiosa e inegável preferência de muitos homens, o chamado sexo pelo lado B ainda é um mistério para a sexualidade feminina. Quem pensa que o sexo anal foi invenção de homem que não se dava por satisfeito com vias ditas tradicionais do amor, se engana. Entre os bichos, ele também foi descoberto como fonte de prazer. Os símios, animais africanos que, na linha evolutiva, estão entre o homem e o macaco, são, machos e fêmeas, adeptos da prática. E, se recorrermos às pesquisas históricas, vamos descobrir que o sexo em marcha ré também é uma prática de muitos e muitos anos (sem trocadilhos, por favor).

Em 2000, paleontólogos e historiadores descobriram, em geleiras chinesas, uma múmia de um homem, datada de mais de 2.300 anos, com vestígios de sêmen em sua região anal. Em gravuras egípcias, também são muitas as cenas que relatam a prática, comum ainda na Grécia antiga, graças à difusão da homossexualidade. Em Roma, por exemplo, o noivo, em respeito à mulher, podia se abster de tirar-lhe a virgindade na noite de núpcias, que, caso isso ocorresse, seguia toda à base do sexo por trás. Mas, com as aplicações da ordem judaico-cristã, o sexo anal, por não se tratar de uma prática reprodutiva, passou a ser visto como pecado. Na Inglaterra do século XVII, dava em prisão perpétua e, na França pré-revolucionária, levava à guilhotina. Ainda hoje, em alguns estados americanos como o Texas, o sexo anal segue proibido por lei. Mesmo assim, no mundo inteiro, continua-se a fazê-lo, sinal de que a coisa não deve ser tão ruim. “Podemos acreditar que, desde que o mundo é mundo, exista a prática sexual pelo ânus. Hoje, ele é provavelmente o maior tabu sexual existente em nossa sociedade.

A penetração pelo ânus soa, para algumas pessoas, como uma prática cruel e suja. A sua reputação ficou pior ainda nas últimas décadas devido ao surgimento do HIV, que é facilmente transmitido pelo sexo anal desprotegido. Apesar de tudo isso, algumas pessoas adoram. E outras, não gostam, nunca tentaram ainda ou são curiosas”, comenta o sexólogo Hélio Felippe. É o caso da secretária executiva Melissa Sales, que diz morrer de medo de se machucar e, pior ainda, se sentir depois fisicamente “desajustada”. Mas não contém a vontade de experimentar. “Tem tanta gente que faz, não deve ser bem assim. Mas o meu pânico é de a coisa não voltar pro lugar, aquelas histórias de incontinência anal, de ficar muito dolorido. Tenho amigas que falam maravilhas e eu mesma já descobri que tenho sensibilidade forte nessa região. Mas já neguei fogo várias vezes para vários homens diferentes e continuo não me sentindo preparada”, justifica ela. Já a produtora de elenco Cássia Ricardo, que perdeu a virgindade aos 16 anos e à moda romana, garante que, hoje, sente tanto prazer no sexo anal quanto no vaginal. “Minha sexualidade sempre foi muito bem vivida, graças a uma boa formação da minha família nesse sentido. Nunca me neguei a nada que não tivesse vontade ou curiosidade e o sexo anal ajudou muito no processo de descoberta das potencialidades do meu corpo. Depois disso, tudo ficou muito mais prazeroso. Mas sei que tem muitas mulheres que não gostam e fazem só para agradar os homens”, afirma ela.

Falando neles, não há mesmo quem negue a quase obsessão masculina pelo sexo anal. E são muitas as explicações para isso. O economista Paulo Felipe Soares assume que a sensação é incomparável. “A textura é completamente diferente da penetração vaginal ou mesmo do sexo oral. É mais apertado, o ângulo é outro também. Acho delicioso”, diz ele. Hélio Felippe também aposta na própria condição de tabu como elemento de prazer. “Certas pessoas sentem prazer em fazer algo considerado ‘errado’ pela sociedade. Outro fator pode ser a necessidade de mudança na rotina de uma vida sexual que se tornou entediante. Mas, particularmente, o homem brasileiro que é um admirador da anatomia traseira feminina, tem a tendência de fantasiar a posição de ‘pegada por trás’ que, além do quê, caracteriza uma certa dominação”, explica ele. No entanto, como colocou Cássia, em muitos relacionamentos o sexo anal é tido como um prêmio. “Fazer dessa prática algo especial, que não acontece todo dia, é interessante. O que não se pode é usá-lo como recompensa, já que a vontade sincera dos dois é uma condição básica para que a experiência seja positiva”, garante Hélio Felippe. “Os caras gostam, mas o problema é que eles não sabem fazer direito”, reclama a professora Alessandra Curi. Na opinião dela, os homens parecem desconhecer noções orgânicas e anatômicas fundamentais para perceber que, na hora do sexo anal, o buraco é mais embaixo. “Eles acham que é como a vagina, que é mais elástica, e simplesmente saem botando, mas não é assim. Tem que rolar um relaxamento prévio, senão trava”, diz ela. Outro desses fatores que não pode ser esquecido diz respeito à lubrificação, como reforça o sexólogo Maurício Torselle, do Instituto Kaplan, de São Paulo. “Ao contrário da vagina, o ânus não tem lubrificação natural, o que torna o uso de um produto adequado imprescindível. Esse, inclusive, é um momento preparatório importante para o relaxamento”, garante ele. Hélio Felippe lembra também os músculos que revestem o ânus, os esfíncteres, não estão anatomicamente preparados para a fricção. “Deve-se tomar cuidado de não forçar a barra para não haver fissura no ânus, causando dessa forma um certo trauma que dificultará cada vez mais as tentativas. No sexo anal, nada deve ser dolorido. Se doer, é porque algo está sendo feito de maneira errada”, afirma. Ainda segundo Hélio, outra recomendação importante é evitar a penetração vaginal depois da anal, nem mesmo com camisinha. “Se rolar a vontade, é imprescindível lavar o pênis entre uma e outra, já que microrganismos bacterianos naturais da flora intestinal podem ser levados para a vagina, causando uma infecção. Aliás, o sexo anal sem camisinha não é recomendável de maneira geral, pois há o mesmo risco para o pênis”, orienta ele. No mais, é só relaxar e aproveitar.

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