Luciana Esteves
Aquela velha história de cara metade pode ser ótima na teoria, mas na prática não é bem assim. O tempo e o convívio são responsáveis por revelar pequenas manias e particularidades que aquela criatura que você tanto ama insiste em cultivar… e que nem sempre são as coisas mais agradáveis do mundo. Roupas pela casa, calcinhas penduradas no box do banheiro, o zapping do controle remoto da televisão ou a mania de ocupar todo o sofá muitas vezes fazem com que o outro se sinta invadido e comece a se fazer a seguinte pergunta: até que ponto deve ir a intimidade de um casal?
“Até a porta do banheiro”, responde o estudante Antonio Dias. “Gosto que a pessoa seja o mais natural possível, mas acho que devem haver alguns limites. Manter a porta do banheiro fechada em determinados momentos é essencial, porque é o tipo de coisa que acaba com a sensualidade da mulher. E até por uma questão de respeito. Acordar junto, descabelado e cheio de remela não dá para evitar… mas você também não precisa beijar na boca com aquele gosto de cabo de guarda-chuva”, afirma. Alguns lemas como “o seu direito começa onde termina o do outro” são ótimos para serem seguidos quando a decisão de juntar as escovas de dentes é tomada. “Quando eu e o Caco fomos morar juntos, eu achava que já conhecia todas as suas manias. Até entrar no banheiro e dar de cara com um monte de roupas sujas jogadas dentro da pia. O pior é que não adiantava reclamar, porque ele esquecia e fazia de novo no dia seguinte. Nem a enorme cesta para roupa suja que eu comprei resolveu o problema”, conta a produtora cultural Tatiana Mattos.
A intimidade pode ser, na verdade, o paraíso e o inferno de qualquer casal. Pelo menos é o que pensa a advogada Graziella Bismarque. “Tudo bem que é importante dividir momentos, mas acho que o até que a morte os separe pode ser muitas vezes substituído por até que o chulé ou o bafo os separe”, diz ela, ressaltando, no entanto, que não se separaria de alguém que amasse muito por causa disso. “É que eu acredito no diálogo e nas adaptações, mas tem coisas que não precisam ser compartilhadas. No meu caso, namorei quase cinco anos. Eu sabia que ele era relaxado, coisa e tal. Tudo bem que eu não esperava um príncipe, mas o primeiro arroto, assim como o primeiro pum, foi muito assustador. Quando eu estava com ele eu ficava muito chateada com isso. Mas agora, separada, eu lembro dessas coisas e, apesar de não considerá-las decisivas, tenho certeza que contam muito para que eu não queira voltar”, garante.
Quando a situação começa a fugir ao controle, o diálogo é realmente a melhor saída. Foi tentando manter o encanto que Felipe e Vanessa decidiram ter uma conversa franca. “Como ela dormia todos os fins de semana lá em casa, depois de mais ou menos um ano de namoro começamos a perceber que a rotina estava desgastando o nosso relacionamento e que determinadas coisas minavam ainda mais a relação. Foi aí que resolvemos parar de, por exemplo, soltar pum e tirar meleca um na frente do outro, porque é o tipo de coisa que acaba com o clima de romance”, afirma Felipe Mendonça, lembrando que não é só o namoro que precisa de alguns limites. “Meu irmão casou há pouco mais de um ano e eu sei que eles mantêm um respeito. Existe uma intimidade dentro do limite do bom senso. Nenhum cara precisa ficar assistindo a mulher trocar o absorvente, por exemplo. Mas, sinceramente, imagino que quando eu tiver uns dez anos de casado, não vou querer levantar do sofá para ir até o banheiro se sentir vontade de soltar um pum”, acredita.
Não são apenas novos hábitos que se revelam. O tempo também pode fazer com que detalhes, inicialmente indispensáveis, deixem de ter o mesmo valor. “Sempre admirei a preocupação que a Miriam tinha em se arrumar no início do nosso relacionamento. Ela estava sempre cheirosa e com lingeries que me tiravam do sério”, recorda o gerente de marketing Leonardo Marques, que em menos de um ano estava casado. Hoje, depois de cinco anos, ele sente falta desse entusiasmo, mas já encontrou um consolo: “É uma troca: ela não reclama da minha barriga e eu me contento com suas calcinhas de algodão”.
Cada macaco no seu galho. Seria essa a solução? Para a arquiteta Márcia Cardoso, a decisão de casar veio acompanhada de uma exigência, segundo ela, básica. “Casar sim, mas morando sob o mesmo teto… de jeito nenhum!”, esbraveja. “Sempre fui um pouco individualista e acredito que as pessoas sejam diferentes demais para se adaptarem às manias do outro. Não consigo imaginar meu marido esparramado no sofá, de cueca samba-canção, assistindo Raul Gil. Marido é muito bom quando você precisa dele, mas quando você quer o seu espaço, eles são insuportáveis. Além do mais, o mistério que envolve cada um de nós é mantido e cada momento junto é curtido com mais intensidade”, acrescenta.
Com uma larga experiência no assunto, Marco Antônio, 37 anos e três casamentos, garante que quando as coisas mais importantes estão bem, você tende a se acostumar com o que é menos importante. “Se o sentimento começa a mudar, até a forma de apertar a pasta de dente é motivo para discussão. Minha mulher acorda a 120 por hora, querendo conversar, contar piada e tudo mais, enquanto eu sou o oposto. Apesar dessa e de outras diferenças, estou casado há dois anos e acho fundamental conhecer a pessoa como ela realmente é… até porque você não se casa com uma imagem. Onde há intimidade não pode haver cerimônia”, conclui.
Viver em sociedade não é tarefa das mais fáceis. À dois é ainda mais difícil. Na verdade, é quase uma arte. Aprender a respeitar os limites do outro exige paciência e prática, além de uma enorme força de vontade. Mas, como dizia Tom Jobim, é impossível ser feliz sozinho…