Cada pessoa encontra-se vinculada com as outras de quem depende. Existe uma certa interligação permanente entre o indivíduo e a sociedade. A psicologia denomina “grupos” às diversas estruturas sociais a que, com diferente vinculação, cada pessoa pertence. O raio de ação desses grupos compreende o matrimônio e a família, a empresa e as associações, e até a comunidade religiosa e a nacionalidade. Dentro de tal ponto de vista, pode-se caracterizar o indivíduo como o “ponto de interseção” de diversas ligações desses conjuntos.
Quando se quer viver junto, praticamente todas as pessoas almejam um relacionamento ideal, que possa ser tudo para ambos. Que seja romântico, divertido, sexy e que inclua uma profunda compreensão mútua, muitos interesses em comum e nenhum hábito desagradável. Infelizmente, esse relacionamento hipotético é extremamente difícil, ou até mesmo impossível, de ser conseguido pela maior parte das pessoas, pois inúmeras coisas conspiram para isso. A comparação de um relacionamento real com fantasias idealistas alimentadas durante a adolescência é algo que tende a causar eternos desapontamentos. Um casamento precoce, antes da personalidade ter tempo para amadurecer, ou o nascimento de filhos antes que os pais estejam suficientemente seguros para resistir aos estresses causados pela gravidez e pela educação das crianças, são outros dois fatores que certamente irão prejudicar uma relação aparentemente boa.
Solteiro, casado, viúvo ou divorciado. Ficar só é, talvez, um dos maiores desafios humanos. Todo mundo teme a solidão e ela não deixa de existir quando uma pessoa se casa ou se converte a uma religião. Ela pode ser intensa, mesmo se a pessoa está cercada por outras. É quando não se tem com quem compartilhar seus anseios e seus medos. Falta de alguém? Que nada. Esse alguém está ali, ao seu lado, porém ausente do seu coração. Incapaz de entender, incapaz de aceitar suas diversas emoções, por muitas vezes complexas.
Depressão, tristeza, medo e melancolia são sentimentos vividos em qualquer nível cultural ou profissional. Um número expressivo de executivos visita os consultórios psicanalíticos em busca de uma essência para a vida, um significado maior que não aquele ao qual estão abraçados. Um sem número de donas-de-casa busca tratamento psicológico indo ao encontro de uma felicidade ainda não conquistada, pois estão carregadas de tristeza. Adolescentes são encaminhados para tratamentos porque em suas mentes perpetuam o medo do desconhecido. Senhores e senhoras encontram-se em grupos terapêuticos para curar suas melancolias decorrentes do tempo e o medo da morte! Tudo isto gera sofrimento, gera solidão.
Segundo Nancy Potts, no seu livro “Faça da Solidão uma Experiência Positiva”, “a solidão tem suas raízes em um caleidoscópio de experiências: promessas não cumpridas, relacionamentos rompidos, desilusões na carreira profissional, sentimentos de rejeição e a incerteza do amanhã. A vida é mais do que um período de tempo entre o nascimento e a morte. O ciclo da vida não permite que tomemos uma posição estática por muito tempo”.
O que é solidão? Essa pergunta precisa ser respondida baseada na experiência pessoal. É uma costura na vida de cada um. Parece ser mais atraente para algumas pessoas do que para outras. Expressar esse sentimento que vem de trás dos muros é uma experiência ímpar no sentido de ultrapassar barreiras, que são levantadas justamente para esconder os nossos temores. Algumas respostas aparecem mais nítidas como: estar só significa sentir medo, procurar ocupar-se com algo, querer estar com alguém mas não ter vontade de procurar; sentir-se abandonado etc. Outros aproveitam esse espaço para rever seus conceitos, pensamentos, sua fé, meditar, ganhar forças. Nem sempre estar só significa fracasso e rejeição.
Podemos optar por viver sozinhos? O lado curioso do desejo de relacionar-se com pessoas mantém a sua verdade intrínseca. Todo mundo tem períodos na vida em que precisa estar sozinho. Na maioria das vezes, as pessoas são capazes de reconhecer essa necessidade em si mais do que nos outros. Se alguém que conhecemos prefere estar só, devemos reconhecer essa necessidade porque é assim que iremos satisfaze-la. Todas as pessoas precisam de um equilíbrio em suas vidas, um tempo para estar sozinha e uma hora em companhia de outros. A maioria das pessoas vive em um dos extremos, ao invés de viver em equilíbrio. Na verdade, isso é sintoma, pois rodeado de gente, sacrificamos o nosso recolhimento, o encontro consigo mesmo, enquanto do outro lado, o mergulho profundo dentro de si mesmo é recusar-se a se arriscar com os outros.
Estar só não é a mesma coisa que estar solitário. Algumas pessoas estão tão cercadas de programas que, quando param um instante, sentem-se mal, solitárias e reagem com surpresa. Para elas, essas inúmeras atividades são subterfúgios para não se defrontarem a sós. Olhar ao redor e se ver sozinho, com os seus pensamentos vindo à tona, causa pânico. A nossa sociedade desencoraja a introspeção. Vejamos uma criança quando é punida pelos seus pais: “Vá para o seu quarto e fique quieto lá!”. Essa mensagem em alto e bom tom, soa como estar só sendo punição, rejeição.
Se estar sozinho torna-se progressivamente uma oportunidade para o aperfeiçoamento, consequentemente os relacionamentos são fortalecidos. Relacionar-se então, acarreta um respeito pelas necessidades e os benefícios da privacidade. Estar sozinho pode, então, ser entendido como uma oportunidade para o crescimento.
Helio Felippe