O Sagrado Feminino

Houve uma vez uma rainha, que tinha um filho tão feio e disforme, que não parecia um ente humano. A mãe sofria desesperadamente, mas uma fada consolou-a, dizendo-lhe que, em compensação, o filho seria tão inteligente quanto habilidoso e teria, também o dom de tornar inteligente a jovem que amasse. A esse menino coube o nome de HenRiquê, porém, como ostentava um topete de cabelos no meio da fronte, todos os chamavam Riquê de Topete.

Quase na mesma ocasião, no reino vizinho, havia nascido uma princesa muito linda, mas tão estúpida, que a rainha sua mãe andava aborrecidíssima. Entretanto, uma fada prometeu que a princesa seria a mais bela moça do mundo e que teria o dom de tornar igualmente belo o jovem que amasse.

Passaram-se os anos. Riquê viu o retrato da famosa princesa, sua vizinha, dela se enamorou e foi pedi-la em casamento. A donzela se achava sozinha no parque, chorando amarguradamente, porque, apesar de toda a sua beleza, todos a evitavam e zombavam dela. O príncipe apresentou-se à moça e disse-lhe que, se ela quisesse aceita-lo como esposo, dentro de um ano, com toda a segurança, ela se tornaria inteligente e engenhosa. A jovem acedeu e o príncipe voltou muito alegre para o seu país.

A jovem noiva se transformou. Tornou-se inteligente, perspicaz, raciocinando com tanta agudeza, que os pais a custo reconheciam nela a moça tola e ignorante de outrora. O tempo se foi passando e a princesa esqueceu a promessa feita a Riquê, o do topete. Entretanto, um belo dia, quando passeava pelo parque, percebeu que a terra tremia sob os seus pés e, ela imediatamente se abriu, deixando ver uma enorme cozinha, regurgitante de cozinheiros, ajudantes e camareiros, que trabalhavam com afinco na preparação de variados e apetitosos manjares. A princesa, admirada, perguntou-lhes para que estavam trabalhando tanto. – Estamos preparando o banquete de bodas para Riquê, o do topete, que vai casar-se amanhã. A donzela só então se lembrou do compromisso que assumira com o príncipe, havia um ano e ficou inconsolável, por ver-se obrigada a casar-se com aquele homúnculo feio e disforme. Quando o príncipe chegou para o matrimônio, ela afirmou que jamais se casaria com ele. Riquê, porém, lhe falou com tanta diplomacia que a princesa por ele sentiu profunda admiração, graças aos seus raros dotes de espírito. Quando ele lhe revelou o dom, que ela possuía, mas ignorava, de tornar belo o jovem a quem amasse, a princesa exclamou, com veemência:

– Desejo, de todo o coração, que te transformes no mais belo príncipe do mundo! Mal havia pronunciado estas palavras, o príncipe converteu-se num belíssimo mancebo. O casamento se realizou no dia seguinte e o casal viveu feliz durante toda a sua vida.

Na história infantil, Riquê do Topete, o papel desempenhado pelas mulheres era insignificante, ficando evidente a sujeição feminina aos caprichos e desígnios dos homens.

O conto Riquê do Topete, de Perrault, traz a história de Um príncipe, muito feio, corcunda, manco e com um enorme topete na testa, mas muito amável e inteligente, e com o dom de transmitir inteligência à pessoa por quem ele se apaixonasse. A princesa por quem se apaixonou era linda, e pouco inteligente, mas também tinha um dom: transmitir beleza a quem ela amasse

A mesma fada deu um dom ao príncipe e outro à princesa, para que os dois se encontrassem e juntos pudessem ser lindos, perfeitos e inteligentes, mas somente a princesa foi totalmente transformada, tudo porque, o príncipe parecia belo somente aos olhos da amada, que passou a não enxergar mais a deformidade do amado.

Riquê do Topete lhe apareceu como o mais belo, mais bem apessoado e mais simpático homem do mundo. Há quem diga que não foi por condão de fada, mas apenas o amor que operou tal metamorfose. Dizem que a princesa, após ter refletido sobre a perseverança do seu amante, a sua discrição e todas as belas qualidades do seu espírito, deixou de atentar à deformidade do seu corpo e à fealdade do seu rosto; que a sua corcunda tão só lhe parecia o jeito de alguém que curvou as costas, e que em vez de o ver coxear horrivelmente, como até ali, apenas notou uma certa inclinação no andar, a que até achava graça. Afirmavam eles também que os olhos dele, que eram estrábicos, lhe pareciam mais brilhantes; que seu ar transtornado passou, a seus olhos por um indício de um violento e desmedido amor e que, enfim, o seu enorme nariz vermelho lhe lembrava algo de marcial e de heróico

Toda esta história vem mostrar de maneira mais clara “a ideologia burguesa em relação às mulheres”  Na visão patriarcal, a mulher deve ser sempre linda, porém inteligente, apenas se o homem permitir. A sujeição feminina é demarcada no momento em que o papel masculino dita as regras, deseja e permite o desempenho da mulher na sociedade, mediante suas vontades, necessidade e princípios.

Esta narrativa parece abstrata, descontextualizada para os dias atuais, talvez fora de nossa realidade, o que não percebemos é que, consciente ou inconscientemente, histórias como esta nos são apresentadas dia a dia, hora a hora nos consultórios.

O melhor disso tudo é que vem sendo adotado pelo público feminino mais antenado a busca do seu Sagrado Feminino, onde vai ao encontro de ensinamentos sobre o corpo, o emocional e os ciclos femininos, e ainda orienta de que forma harmonizá-los com a natureza.

Isso significa que quando as mulheres passam a se desligar um pouco do mundo tecnológico e rotineiro, ou seja, buscam descobrir mais sobre si próprias, se interiorizando, percebendo melhor seus instintos, suas vontades e seus ciclos femininos (como a menstruação e a gestação), elas relatam que o mundo a sua volta – e aquele que existe dentro delas – parece mudar. É como se uma nova consciência as abraçasse.

Esse despertar para uma nova consciência sobre si mesma pode ser interpretado como a saída da supremacia patriarcal – repressora e cheia de regras – para a entrada em um mundo mais maternal, afetivo e artístico, além de menos racional e mais sensível.

No Sagrado Feminino, mulheres de todas as culturas, religiões e crenças aprendem a se desvincular de padrões de beleza e regras pré-estabelecidas pela sociedade. Elas descobrem como se amar exatamente como são e passam a se enxergar como verdadeiras “Deusas”. Afinal, o ato de gerar, parir, nutrir, amar e intuir pode ser considerado uma dádiva proporcionada às mulheres.

Nesse novo estilo de comportamento, as mulheres passam a valorizar mais seus ciclos naturais, como a menstruação, a maturidade, a gestação, o parto e a amamentação. No entanto, não são induzidas a serem radicais ao viver esses períodos ou exercer determinadas funções. O valor está em aceitar a naturalidade das coisas, seu histórico de vida, vontades e capacidades. Aprendendo a se conhecer de forma mais profunda e a aceitar os acontecimentos da vida e a si mesma, as feridas começam a ser curadas e as mulheres passam a ser mais felizes, amáveis e únicas.

Helio Felippe

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