Chegamos ao final do ano e junto com o natal, ficamos sempre na expectativa de comprar novos produtos, novas tecnologias e mudar nossas vidas. Um novo iPhone, ou uma nova versão do Windows, por exemplo, para que eles preencham nossos complexos vazios. Quebrar paradigmas da vida chata, do dia a dia “sem graça”, significa ter algo novo e, certamente a tecnologia nos ajuda a transcender. Afinal, você não estaria lendo este texto se não existisse um computador, um celular, então, obviamente esta não é nenhuma daquelas odes anti-tecnologia, pelo contrário.

O que venho percebendo é que todo esse entusiasmo de ficar com a cara na telinha, não é só pelo novo, até porque, logo logo isso não será mais novidade. Então, tudo isso é um sinal de que estamos procurando por alguma coisa que não está lá dentro das telas touch-screens, é um vazio existencial.

A busca incessante nas redes sociais denota a procura de si mesmo através de um outro que seja o ideal do seu ego, aquele que represente o que ele gostaria de ser e daí, mudar a sua própria vida.

Numa primeira análise,  somos levados a crer que o único objetivo da vida humana é destruir a própria solidão. Não conseguimos ficar sozinhos, precisamos sempre de agitação. Estamos sempre em busca de algo.  Envolvemo-nos em tarefas arriscadas e difíceis; envolvemo-nos em projetos, conflitos ou conquista que, muitas vezes, nos trazem infelicidade. Não suportamos o silêncio ou  estar consigo mesmo, apenas “se pertencer”. Precisam do barulho, do ruído e da agitação. Somos incapazes de desligar a televisão, o rádio, o celular quando estamos sozinhos. Fugimos da solidão para não escutarmos a voz do coração, para não admitirmos o fracasso, para não percebermos o vazio dentro de nós.

Pascal no século XVII já falava da  condição miserável e mortal do ser humano que não consegue refletir sobre sua condição, permeada pela dor, dissolução e morte, nada os pode consolar.

Platão em o Mito da Caverna já sugeria que o que falta ao homem é eternidade.  Os indivíduos são seres vazios. Vivem na busca de preencher seu mundo interior com algum entretenimento ou com algum objeto.  Todo seu sentido interno se expressa pelo sensível e pelo concreto. Buscam preencher sua interioridade com todo tipo de banalidades. O sistema capitalista serviu muito bem a esse propósito. Esse sistema ofereceu ao homem um mundo de entretenimentos, prazeres e objetos para que ele possa preencher seu vazio interior. É por isso que o capitalismo sobreviveu, é por isso que ele se perpetuou. Ele impediu que o homem encarasse o vazio descomunal de sua interioridade.

O homem é um ser inacabado, e por isso, vive a procura de si mesmo, buscando preencher esse vazio existencial. Jean Paul Sartre dizia que  viver é ficar se equilibrando, o tempo todo, entre escolhas e consequências. E é justamente o que vemos hoje em dia, nós vivemos buscando o equilíbrio interno independente das consequências, no entanto, pagamos caro por elas.

Se nós, continuarmos somente com os olhos na telinha do celular, iremos caminhar para a imobilidade existencial e o desespero será ainda maior. A realidade está nos mostrando desde agora que nada será como antes, mas também não precisa continuar a ser assim, tão vazio.

Quem ainda não experimentou sentar na mesa de um bar com amigos e alguns não tirarem os olhos do celular? É uma experiência muito ruim, já que o encontro é justamente para favorecer o contrário. Se, diante de você existe alguém, uma pessoa com a pretensão de se comunicar, o que será que a leva então para dentro da telinha? Segundo Confúcio, “o homem superior busca em si mesmo o que quer, enquanto que o homem inferior busca nos demais.

Na verdade, não sabemos o sentido do que queremos. Todos os dias fazemos as mesmas coisas, repetimos gestos e nos tornamos chatos e vazios. Assistimos aos mesmos programas, falamos com as mesmas pessoas e não percebemos que estamos reféns de nós mesmos e temos dificuldades em mudar. Apegamo-nos  à verdades, valores, regras que nos são incutidas inconscientemente, e que, quando são expostas, temos dificuldades em enxergar e nos tornamos despersonalizados, sem capacidade para contemplar o mundo interior. Desta forma, o nada toma conta do nosso ser e vamos por aí, até quando der… e como diz Montaigne, “meditar sobre a finitude é meditar sobre a liberdade”. Haja terapia!

Helio Felippe