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ORAÇÃO DO PAI CONTEMPORÂNEO

“Dai-me, meu Deus,a luz da Vossa Inspiração. Quero educar meus filhos para a ternura, a tolerância e a compreensão do próximo. Mas porque os ternos e os doces acabam tão raros, estranhos, quase marginais, sem chance de fazer ou criar na dura competição pela vida?

E se os educo na linha da dureza e exigência, formarei pessoas eficazes,atletas do saber e do fazer,padrões de êxito externo, brilho e posição. Mas os que conheço assim, sinceramente, são felizes? Como? Se trocaram suas pessoas pelo papel que desempenham?

Às vezes meu pai penso em não interferir. Em deixar que o que a neles de seu, de atávico, de hereditário e de intransferível vá ensinando-os. Mas eu venho de um tempo em que ficou moda deixar a criança entregue a si mesma”para não frustrar”. Depois vi que essas crianças “sem frustração”, crescidas, afundando-se na mais completa desagregação, berrando sua solidão e o “ me protege pai”, disfarçados em agressividade, autodestruição e negação sem afirmação compensatória.

Será que a educação de meus pais, durona, do “não pode”, “não deve”, “é pecado”, “eu não quero”, “você vai ser igual a mim”, será que essa é a certa? Mas quantos, Senhor, vindos desta, vi resvalar na vala da amargura, da vida, não vivida, da revolta sem remédio?

Eu gostaria de só falar-lhes do amor possível, da importância do sentimento do outro, da capacidade de ver e sentir o próximo, como aprendi nos livros e nos mestres e sempre tentei talvez sem conseguir. Mas não estarei formando um puro, mais um sem vez nesse mundo?

Posso ensinar-lhes as mil regras do bom senso, da capacidade de compreender e ajustar-se. Mas ao formar um ajustado não estarei criando apenas um número na multidão de concordâncias cômodas?

E se o envio a um analista? Não estarei preparando um especialista em dúvidas? Alguém que compreende demais, a tudo e a todos e não age nunca?

Quem sabe, meu Pai, limito-me a passar-lhe todos os meus valores de vida, aqueles que herdei dos meus pais, e os outros que colhi sofrendo sozinho? Valerão algo num mundo que muda a cada dez anos mais que em todos os anteriores?

Se lhe digo o que penso invado sua liberdade.
Se nada lhe falo, peco por omissão.
Se discuto, acabo impondo
Se imponho, esmago.
Se calo, consinto.
Se consinto, acabo perdendo-o e isso não saberei suportar.

Dai-me , Senhor, a luz de um caminho, uma honesta opção para quem, como eu, sabe do mundo, conhece-lhe as esperança, grandezas e também as curvas da emboscada, alguém como eu que aspira ao absoluto a aos valores nos quais, teimoso, não deixou de crer. Sou homem aberto ao mundo e ao novo, disposto a examinar a vida sempre vendo todos os seus lados. É mais fácil escolher um dos caminhos, negando os demais. Mas é exatamente por isso que o homem vive em guerra…

Ajudai-me, Pai, a descobrir e aceitar que muito ajuda quem deixa florescer, sem tanto intervir”.

Artur da Távola