As mulheres nos torturam com suas medidas. Não entregam de jeito nenhum. Nem de mão beijada, muito menos de pé beijado ou de nuca beijada. Temos que descobrir ao longo da relação, e jamais interrogar o tamanho do sutiã, da calcinha, da calça, da camisa, do vestido, do biquíni.

O marido é impelido a espiar os cabides, fazer média das pilhas do guarda-roupa, cruzar fotografias dos últimos dez anos. Eu enlouqueço procurando descobrir. Para não sofrer ao comprar presentes, as senhas bancárias são dados da nudez da minha musa. Assim não erro, e não sofro o constrangimento de vê-la voltar à loja por incompetência amorosa.

Mas por que a esposa ou a namorada não nos facilita o acesso? Não seria mais simples nos fornecer uma listinha com a descrição básica? A hipótese mais comum é romântica: ela deseja secretamente que a gente decore seu corpo, assim como somos obrigados a memorizar a data do primeiro beijo, do primeiro abraço, do primeiro cinema, do primeiro jantar, da primeira transa. Apesar da beleza da alternativa, é falsa. Mulher não repassa sua modelagem de propósito, já que nunca se sente magra o suficiente. Conserva a esperança de que o jeans da adolescência voltará a entrar em sua cintura, de que o vestido mínimo da festa de vinte anos descerá suavemente pelas costas. Pode estar exuberante, impecável, em forma, ainda suspira pela superação de suas etiquetas. Ela não repassa informações à sua companhia por sonegar a si mesma. Seus dados pessoais são provisórios. Não carregam o caráter imutável das medidas masculinas. O homem aprende uma vez que é P, M, G ou GG e não se incomoda mais com o assunto. Mulheres trabalham com números quebrados, centímetros, polegadas. Qualquer peça é uma balança. Qualquer peça é um teste. Qualquer peça é um exame de balizas. Dizer com precisão o que veste é aposentadoria, é assumir que ela desistiu de emagrecer, abandonou as inúmeras e sucessivas dietas, envelheceu definitivamente. Sua defesa predileta é argumentar que não sabe direito seu tamanho, pois muda de acordo com a confecção. Ela adora essa desculpa. Enche a boca de flúor para falar que há marcas mais largas e mais justas. Delicia-se em explicar que sapatos A são maiores do que a numeração de sapatos B, então é preciso experimentar, não há como comprar de olho. Questionar o manequim feminino é tão ofensivo quanto perguntar a idade. As medidas são a idade do desejo, a idade do sonho.

 

Fabrício Carpinejar