Autor desconhecido

As Ciências Humanas estão sempre tomando emprestado das Exatas, termos e conceitos. A última novidade vem da Física e atende pelo nome de resiliência. Significa resistência ao choque ou a propriedade pela qual a energia potencial armazenada em um corpo deformado é devolvida quando cessa a tensão incidente sobre o mesmo.

Em Humanas, a resiliência passou a designar a capacidade de se resistir flexivelmente à adversidade, utilizando-a para o desenvolvimento pessoal, profissional e social. Traduzindo isso através de um dito popular, é fazer de cada limão, ou seja, de cada contrariedade que a vida nos apresenta, uma limonada, saborosa, refrescante e agradável.

Não adianta brigar com problemas. É preciso enfrentá-los para não ser destruído por eles, resolvendo-os. E rapidamente, de maneira certa ou errada. Problemas são como bebês, só crescem se forem alimentados. Muitos deles resolvem-se por si mesmos. Mas quando você os soluciona de forma inadequada eles voltam, dão-lhe uma rasteira e, aí sim, você os anula corretamente.

Das artes às ciências, passando pela filosofia, política e religião, várias personalidades da história mundial, durante algum período de sua infância e/ou vida adulta, tiveram o enfrentamento de adversidades. Ludwig Bethoven, musicista, compôs parte de suas obras-primas padecendo de surdez total; Stephen Hawking, físico, formulou sua teoria da cosmologia quântica após ser acometido por esclerose amiotrófica; Maomé, líder religioso, responsável pela fundação do Islamismo, teve origem humilde e ficou órfão aos seis anos de idade. Recentemente, o romancista húngaro Imre Kertész, que foi sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura; e, no ano de 2002, o Brasil elegeu para presidente da República um ex-operário metalúrgico, homem de origem humilde, cuja infância foi marcada por profundas dificuldades econômicas e pela ausência paterna, pois somente aos sete anos de idade veio a conhecer seu pai, definido pelo próprio presidente como um homem muito ignorante.

Poder-se-ia contra-argumentar exemplificando com outros vultos históricos cujas biografias não relatam fatores de risco significativos durante o desenvolvimento infantil. Como exemplos se poderiam então citar: Sidharta Gautama, o Buda, que nasceu príncipe e foi criado em palácio real; os filósofos René Descartes e Aristóteles, ambos originários de famílias de posses, e ainda Charles Darwin, pai da teoria evolucionista, que, apesar de sua mãe ter falecido quando ele tinha apenas oito anos de idade, pertenceu a uma família de intelectuais e industriais bem-sucedidos.

Acrescentaríamos, ainda, o argumento de que todo e qualquer infante passaria por algum tipo de dificuldade, tanto do estatuto emocional, social e físico como do econômico. Isso, para reforçar a tese do senso comum de que não há uma existência humana plenamente feliz e completamente protegida das incertezas da vida.

Arrebente as correntes
Você já observou elefante no circo? Durante o espetáculo, o enorme animal faz demonstrações de força descomunais. Mas, antes de entrar em cena, permanece preso, quieto, contido somente por uma corrente que aprisiona uma de suas patas a uma pequena estaca cravada no solo. A estaca é só um pequeno pedaço de madeira. E, ainda que a corrente fosse grossa, parece óbvio que ele, capaz de derrubar uma árvore com sua própria força, poderia, com facilidade, arrancá-la do solo e fugir.

Que mistério! Por que o elefante não foge?

Há alguns anos descobri que, por sorte minha, alguém havia sido bastante sábio para encontrar a resposta: o elefante do circo não escapa porque foi preso à estaca ainda muito pequeno. Fechei os olhos e imaginei o pequeno recém-nascido preso: naquele momento, o elefantinho puxou, forçou, tentando se soltar. E, apesar de todo o esforço, não pôde sair. A estaca era muito pesada para ele. E o elefantinho tentava, tentava e nada. Até que um dia, cansado, aceitou o seu destino: ficar amarrado na estaca, balançando o corpo de lá para cá, eternamente, esperando a hora de entrar no espetáculo.

Então, aquele elefante enorme não se solta porque acredita que não pode. Para que ele consiga quebrar os grilhões é necessário que ocorra algo fora do comum, como um incêndio por exemplo. O medo do fogo faria com que o elefante em desespero quebrasse a corrente e fugisse.

Isso muitas vezes acontece conosco! Vivemos acreditando em um montão de coisas “que não podemos ter”, “que não podemos ser”, “que não vamos conseguir”, simplesmente porque, quando éramos crianças e inexperientes, algo não deu certo ou ouvimos tantos “nãos” que “a corrente da estaca” ficou gravada na nossa memória com tanta força que perdemos a criatividade e aceitamos o “sempre foi assim”.

Poderia dizer que o fogo para nós seria: a perda de um emprego, doença de alguém próximo sem que tivessemos dinheiro para fazer o tratamento, ou seja, algo muito grave que nos fizesse sair da zona de conforto.

A única maneira de tentar de novo é não ter medo de enfrentar as barreiras, colocar muita coragem no coração e não ter receio de arrebentar as correntes! Não espere que o seu “circo” pegue fogo para começar a se movimentar. Seja resiliente!

Não podemos comparar seres humanos com os paquidermes, não obstante, a observação do comportamento humano nos remete também a algumas interrogações: como algumas pessoas conseguem enfrentar situações adversas ao desenvolvimento humano? Por que alguns são mais vulneráveis que outros diante de situações de risco? Por que outros indivíduos apresentam invulnerabilidade e competência para manejar situações estressantes? Como alguns seres humanos podem se recuperar de grandes perdas materiais e/ou emocionais? Quais seriam as variáveis que possibilitam a alguns superar seus infortúnios de forma a estes não interferirem no desenvolvimento emocional posterior?

A psicologia tem apresentado como via teórica para compreender e discutir essas interrogações o conceito de resiliência, comumente definida como a capacidade de o indivíduo, ou a família, enfrentar as adversidades, ser transformado por elas, mas conseguir superá-las.