Helio Felippe
Quando estamos apaixonados por alguém, a última coisa que nos passará pela cabeça seria nos apaixonarmos por outra pessoa. Quando se mergulha num relacionamento mais forte, é absolutamente normal planejar a total fidelidade mútua.
Passam-se os anos. O relacionamento se estabelece vira uma coisa bem diferente da que se imaginava. Pode ser apenas por isso, como pode ser por isso e por mais um monte de razões, mas acontece: de repente, alguém que tinha jurado amor eterno se apaixona por outra pessoa. E está criado um caso. Um caso dentro de um caso, o mais dentro de um famoso triângulo amoroso.
Ter um caso é muito diferente de ceder a uma atração casual. Quer dure algumas semanas, meses ou até anos, ter um caso implica comprometer-se, tanto com a nova paixão quanto com a velha. Com a nova, você fixa encontros regulares, o relacionamento se aprofunda, pode virar amor.
Modernamente, passou-se a encarar a situação de maneira diferente. Antigamente – e mesmo hoje, em muitas cabeças – ter um caso era só para o homem. Uma situação vista quase sempre com cinismo: o homem ter caso? sinal de virilidade; a mulher? pouca vergonha. Hoje muitos encaram a situação como resultado, também da busca muito humana de amor – que não exclui a busca igualmente humana da liberdade (no caso, buscar a realização do direito ao sexo e ao amor).
Seja qual for o seu ponto de vista sobre o que é ter um caso; sejam quais forem as suas razões; seja qual for o rumo que tomará o triângulo em que você se enredou, a verdade é que você nunca estará livre de problemas.
Geralmente, um caso é excitante no começo. Encontros clandestinos, sexo louco; o prazer inebriante das horas contadas para reencontrar alguém que você acha incrível e que mal consegue esperar para rever.
Quando a situação evolui, até a pessoa mais sensível começa a sofrer, de um jeito ou de outro. O novo amor fica infeliz com as restrições; não pode telefonar em tais e tais horas, vocês não podem ver-se quando bem entendem. O velho amor, mesmo não sabendo de nada, sente uma mudança no relacionamento, em geral para pior, e pode sentir tristeza e culpa. Mesmo o lado principal do trângulo, que deveria estar vivendo no melhor dos mundos, carrega a responsabilidade de dois amores. As vezes precisa mentir, e gasta muita energia emocional para ir levando a vida num clima relativamente suave.
Pouca gente, homem ou mulher, de cabeça antiga ou moderna, é capaz de ficar inteiramente à vontade quando se vê na pela da figura central de um triângulo amoroso. Especialmente se sofrer pressão para escolher um dos lados.
O triângulo clássico – marido, mulher e amante – funcionou razoavelmente bem no passado. Todos conheciam seus lugares. A amante, algumas vezes de classe social inferior, contentava-se em estar instalada em sua casinha, ou apartamento mais modesto, e jamais
os filhos, empregados, vida social, e se permitia manter um distanciamento do marido. Se lhe passasse pela cabeça a existência de outra, sabia quão improvável seria essa mulher perturbar-lhe o sossego; e sabia quão comum era a situação.
O marido provavelmente acreditava na existência de dois tipos de mulher: as meninas competentes, boazinhas, charmosas e socialmente aceitas, com quem se comprometeria até que a morte os separasse, e as garotas de programa (havia nomes piores), com quem se podia fazer sexo, mas casar jamais.
As regras do jogo mudaram hoje em dia. Já não há tanto cinismo. Pouca gente aceitaria, agora, fazer parte de um triângulo amoroso clássico. No entanto, isso continua acontecendo muitas e muitas vezes, e pelas mais variadas razões.
Existem vários motivos para a traição: vingança, devido à sensação de estar sendo traído, insatisfação, questões culturais, a busca pelo novo, carências, ou mesmo pela sensação de poder.
As mulheres que são traídas aceitam e lidam melhor com a traição por dependência emocional e até mesmo financeira. Por medo de ficarem sozinhas, quando as mulheres descobrem a traição, tendem a esconder a dor e adotar uma postura de “mãe compreensiva” e perdoam, mesmo que tenham brigado antes.
Os homens quando são traídos tentam fingir que não sabem, pois, admitindo, terão que tomar uma atitude diante da sociedade que aceita e justifica muito mais a traição masculina do que a feminina. Enquanto as mulheres brigam, os homens se envergonham e tem atitudes drásticas.
É muito difícil suportar a infidelidade, a dor de ser traído, de ser enganado. Por isso, há a dificuldade de perdoar e superar o ocorrido.
Freud em seus escritos diz que existe uma grande dificuldade no ser humano em integrar a sexualidade ao resto de sua vida, ao casamento e ao amor. Para muitas pessoas parece até que a vida se resume nessa questão: “Trair ou ser Traído”. Atualmente, a situação de “ficar”, de não ter compromisso, só vem a reforçar e a estimular esse comportamento.
Muitos homens que se consideram modernos chegam a pensar que está é a maneira certa de agir – “é como a maioria faz”, se justificam.
Os homens, mais do que as mulheres, tem tendência a começar um caso. Podem estar até bem felizes no relacionamento presente; de repente, embarcam num caso, que muitas vezes consideram uma brincadeira. No começo é apenas uma saidinha. O problema começa quando o caso fica mais envolvente do que o esperado; e a escapadinha começa a ter uma escala obrigatória. Enquanto eles conseguem manter uma distância emocional, tudo parece perfeito. Mas aí se apaixonam, e a situação se complica.
Os homens acham que podem sustentar uma relação extra sem machucar ninguém, o que raramente é possível, principalmente quando o caso se prolonga.
Na verdade, parece que os homens continuam sendo mais treinados que as mulheres para manter uma distância emocional. Em uma sociedade predominantemente machista, os homens são educados para não desperdiçarem nenhuma oportunidade, provando assim que são capazes de seduzir qualquer mulher.
O que acontece é que os homens idealizam a mulher perfeita em todos os aspectos, principalmente físicos e as mulheres desejam um homem que as ame, apóie e as ajude, colocando assim muita expectativa na relação o que pode gerar muita frustração e decepção, facilitando a traição. Homens e mulheres lidam com a questão da traição de formas distintas.
De uma forma geral o homem trai mais. Pode ser por questões ligadas ao sexo, por uma forte atração física, uma oportunidade inesperada e imperdível ou até mesmo por puro exercício de masculinidade.
Nesse caso, podemos dizer que geralmente a traição masculina não está ligada ao amor, raramente tem relação com questões afetivas e emocionais. No entanto a mulher quando trai, é por que de alguma forma a relação não vai bem, não a satisfaz, a motivação para a traição está mais ligada ao amor e ao afeto. Por esta razão, o caso costuma ser muito mais sério desde o início, e pode destruir o relacionamento já existente.
Normalmente, as mulheres se mostram menos felizes com a continuação de um relacionamento duplo. Em geral, acabam optando pelo amante, sobretudo se não existem filhos. Quando tem filhos, ficam mais inclinadas a prolongar o caso sem deixar o marido.
Fim da primeira parte